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quinta-feira, 3 de setembro de 2009

UMA MENSAGEM QUE ESTÁ NA VIDA E É A VIDA.

Por: Dr. Jérôme Lejeune


Tirado de Clara Lejeune: Dr. Lejeune, O Amor a vida, Ed. Palavra Madrid. 1999. pp 47-50.


Este texto foi escrito por Jérôme Lejeune em 1973. Resume toda a força da certeza científica de um dos pais da genética moderna, grande médico e grande cientista, descobriu numerosas enfermidades de origem genética, uma das quais a TRISOMIA é a mais conhecida.


“A genética moderna resume-se num credo elementar que é este: no principio há uma mensagem, mensagem essa que está na vida, e essa mensagem é a vida. Este credo, verdadeira parafrasis do inicio de um velho livro que todos conhecem bem, é também o credo do médico genético mais materialista que possa existir. Porquê? Porque sabemos com certeza que toda a informação que definirá um individuo, que lhe ditará não só o seu desenvolvimento; mas também a sua conducta ulterior, sabemos que todas essas caracteristicas estão escritas na primeira célula. E o sabemos com uma certeza que vai mais além de toda a dúvida razoável, porque se esta informação não estiver já completa desde o principio, não podia ter lugar; porque nenhum tipo de informação entra num ovulo depois da sua fecundação. (...)

Mas haverá quem diga que, no principio de tudo, dois ou três dias depois da fecundação, só há uma pequena massa de células. Que digo! No principio trata-se de uma só célula, a que provém da união do ovulo com o espermatozoide. Certamente, as células se multiplicam activamente, mas essa pequena demora para se fixar na parede do útero, é já diferente da sua mãe? Claro que sim, já tem a sua própria individualidade e, o que é duras penas crieible, ja é capaz de dar ordens ao organismo de sua mãe.

Este minúsculo embrião, ao sexto ou sétimo dia, só com um milimetro e meio de tamanho, toma imediatamente o comando das operações. É ele, e só ele, quem detém a menstruação da mãe, produzindo uma nova substância que obriga o corpo amarelo do óvulo a pôr-se em marcha.

Tão pequenino como é, é ele quem, por ordem quimica, força a sua mãe a conservar a sua protecção. Ja faz dela o que quer e Deus sabe que não se privará dele nos anos seguintes.

Aos quinze dias do primeiro atrazo das regras, com a idade real de um mês, já que a fecundação teve lugar quinze dias antes, o ser humano mede quatro centimetros e meio. Seu minúsculo coração bate já faz uma semana, seus braços, suas pernas, sua cabeça e o seu cérebro já estão em formação.

Aos sessenta dias, com a idade de dois meses quando o atraso das regras é de mês e meio, mede, desde a cabeça até ao trazeiro, uns três centimetros, cabia, recolhido sobre si mesmo, numa casca de noz. Seria invisível no interior de um punho fechado, e esse punho esmagaria-o sem querer, sem que nos desse-mos conta: mas, extendam a mão, está quase terminado, mãos, pés, cabeça, orgãos, cérebro... tudo está no seu sitio e já nada fará, senão crescer. Vejam mais perto, poderão até ler as linhas da sua palma da mão e dizer-lhe a sua boa-ventura. Vejam mais perto ainda, com um microscópio corrente, e poderão decifrar as suas impressões digitais. Já tem tudo o que é necessário para tirar o bilhete de identidade.

O incrivél polegarzito, o homem mais pequeno que um polegar, existe de verdade; não se trata do polegarzito do conto, mas sim do que fomos cada um de nós.

Mas dirão que até aos cinco ou seis meses o seu cérebro não está todo terminado. Mas não, não! Na realidade o cérebro só estará completamente no seu sitio no momento do nascimento; e as suas inumeráveis conexões não estarão completamente estabelecidas até que não cumpra os seis ou sete anos, e a sua maquinaria quimica e electrica não estará completamente rodada até aos quatorze ou quinze.

Mas no nosso polegarzito de dois meses já lhe funciona o sistema nervoso? Claro que sim, se, se roçar com um cabelo no seu labio superior, move os bracos, o corpo e a cabeça num movimento de fuga(...).

Aos quatro meses move-se tanto que a sua mãe percebe os seus movimentos. Graças á quase total leveza da sua capsula cosmonauta, dá muitas cambalhotas, actividade para a qual necessitará anos, antes de voltar a realizá-la ao ar livre.

Aos cinco meses, agarra com firmeza o músculo do bastão que lhe pusemos nas mãos e chupa o dedo esperando a sua entrega. (...)

Então para quê discutir? Porquê questionar-se, se estes homenzitos existem de verdade? Porquê racionalizar e fingir crer, como se fosse um bacteriológico ilustre, que o sistema nervoso não existe antes dos cinco meses? Cada dia, a ciência descobre-nos um pouco mais as maravilhas da vida oculta, desse mundo bulicioso da vida dos homens minúsculos, ainda mais assombroso que os contos para meninos.

Porque os contos foram inventados a partir de uma historia verdadeira; e se as aventuras do polegarzito existem agora, fomos um dia um polegarzito no seio de nossas mães."

domingo, 2 de agosto de 2009

O TESTEMUNHO DO DR. JÉRÔME LEGEUNE

O Senado norte-americano, impressionado pela problemática do aborto, pôs-se a considerá-la com seriedade. E, a fim de tomar posição, procurou informações dos cientistas a respeito do momento em que o concepto pode ser considerado autêntico indivíduo humano, pois tal questão é decisiva para se definirem os direitos da criança. Em vista de uma resposta, foi consultado, entre outros, o prof. Jérôme Lejeune, francês; os títulos e méritos desse mestre e sua posição se acham expostos no texto que transcrevemos a seguir e que corresponde ao relatório apresentado à Comissão Senatorial encarregada do inquérito, em 23 de abril de 1981. O próprio autor deu a seu trabalho o título de Testemunho.

"Meu nome é Jérôme Lejeune. Doutor em Medicina e em Ciências, sou responsável pela Clínica e pelo Laboratório de Genética do Hospital de Pediatria destinado aos pacientes feridos por debilidade mental. Após ter pesquisado em tempo integral durante dez anos, tornei-me professor de Genética Fundamental na Universidade René Descartes.

Há cerca de 23 anos descrevi a primeira doença cromossômica em nossa espécie, devida ao cromossoma 21 extranumerário, típico do mongolismo.

Em conseqüência, tive a honra de receber o Prêmio Kennedy das mãos do falecido presidente e a William Allen Memorial Medal da Sociedade Americana de Genética Humana. Sou membro da American Academy of Arts and Sciences.

Com meus colegas do Instituto de Genética de Paris, nos dedicamos à descrição das etapas fundamentais da hereditariedade humana. Pelo estudo comparativo de numerosas espécies de mamíferos, inclusive os símios antropóides, estudamos as variações cromossômicas registadas no decorrer da evolução. Na espécie humana, analisamos mais precisamente os efeitos desfavoráveis de certas aberrações cromossômicas.

Nesses anos demonstramos pela primeira vez que uma doença cromossômica pode ser combatida por um tratamento adequado... Mostramos que um tratamento químico pode curar a lesão cromossômica em culturas de tecidos. Mais: uma dosagem apropriada de produtos químicos (monocarbonatos e suas moléculas vectoras) melhora simultaneamente o comportamento e as atividades mentais das crianças afetadas. Assim a pesquisa meticulosa realizada sobre certos mecanismos da vida pode levar a uma protecção directa de vidas humanas em perigo.

Quando começa um ser humano?

Desejo trazer a essa questão a resposta mais exata que a ciência pode atualmente fornecer. A biologia moderna ensina que os ancestrais são unidos aos seus descendentes por um liame material contínuo, pois é da fertilização da célula feminina (o óvulo) pela célula masculina (o espermatozóide) que emerge um novo indivíduo da espécie humana.

A vida tem uma longa história, mas cada indivíduo tem o seu início muito preciso, o momento de sua concepção.

O liame material é o filamento molecular do ADN. Em cada célula reprodutora, essa fita, de um metro de comprimento aproximadamente, é cortada em segmentos (23, na nossa espécie). Cada segmento é cuidadosamente enrolado e empacotado (como uma fita magnética em minicassete), tanto que no microscópio aparece como um bastonete: um cromossoma.

Desde que os 23 cromossomas do pai se juntam aos 23 cromossomas da mãe, está colectada toda a informação genética necessária e suficiente para exprimir todas as características inatas do novo indivíduo. Isso se dá à semelhança de uma minicassete introduzida num gravador; sabe-se que produz uma sinfonia.

Assim também o novo ser começa a se exprimir logo que foi concebido.

As ciências da natureza e as ciências jurídicas falam a mesma linguagem. A respeito de um indivíduo que goza de boa saúde, o biólogo diz que tem boa constituição; a respeito de uma sociedade que se desenvolve harmoniosamente para o bem de todos os seus membros, o legislador afirma que ela tem uma Constituição equilibrada.

Um legislador não consegue entender uma lei particular antes que todos os seus termos tenham sido clara e plenamente definidos. Mas, quando toda essa informação lhe é oferecida e a lei foi votada, ele pode ajudar a definir os termos da Constituição.

Como trabalha a natureza ?

Trabalha de modo análogo. Os cromossomas são as tábuas da lei da vida; quando eles são reunidos no novo indivíduo (a votação da lei é figura da fecundação do óvulo pelo esperma), eles descrevem inteiramente a Constituição dessa nova pessoa.

É surpreendente a miniaturização da escrita. É difícil crer, embora esteja acima de qualquer dúvida, que toda a informação genética, necessária e suficiente para construir nosso corpo e até nosso cérebro (o mais poderoso engenho para resolver problemas, capaz até de analisar as leis do universo), possa ser resumida a tal ponto que seu substrato material possa subsistir na ponta de uma agulha!

Mais impressionante ainda é a complexa soma de informação genética por ocasião do amadurecimento das células reprodutoras, a tal ponto que cada concepto recebe uma combinação inteiramente original, que nunca se produziu antes e que não se reproduzirá tal qual no futuro. Cada concepto é único e, portanto, insubstituível. Os gêmeos idênticos e os hermafroditas verdadeiros são exceções á regra: cada ser humano é uma combinação genética. E notemos que as excepções devem ocorrer no momento da concepção. Acidentes posteriores não levam a um desenvolvimento harmonioso.

Todos esses fatos são conhecidos há muito tempo; todos os cientistas já outrora estariam de acordo em dizer que, se existissem bebês de proveta, eles evidenciariam a autonomia do concepto; a proveta não possuiria nenhum título de propriedade sobre eles. Ora os bebês de proveta já existem.

Experiências recentes:

Quantas células são necessárias para a construção de um indivíduo?

A resposta nos é dada por experiências recentes.

Se conceptos precoces de camundongos são tratados com enzimas, as suas células se desagregam. Se, porém, misturarmos tais suspensões celulares provenientes de embriões diferentes, veremos que as células voltam a se reunir. O número máximo de células que operam para a elaboração de um indivíduo é três.

O ovo fecundado normalmente divide-se em duas células: uma delas se divide imediatamente de novo. Assim se forma o número ímpar e surpreendente de três células, encapsuladas em seu invólucro protetor.

Segundo os nossos mais adiantados conhecimentos, a individuação (ou a formação de três células fundamentais) é a primeira etapa após a concepção, à qual se segue dentro de poucos minutos.

Tudo isso explica por que os doutores Edwards e Steptoe puderam ser testemunhas de fecundação, em proveta, de um óvulo da Sra. Brown por um espermatozóide do Sr. Brown. O minúsculo concepto que eles implantaram alguns dias mais tarde no útero da Sra. Brown não podia ser nem um tumor, nem um animal. Era, na verdade, a extremamente jovem Luísa Brown, que tem hoje a idade de três anos.

A viabilidade do concepto é extraordinária. Por experiência, sabemos que um concepto de camundongo pode ser congelado por frio intenso (até de 29 graus) e, depois de reaquecido delicadamente, ser implantado com êxito. Para que haja o ulterior crescimento, requer-se necessariamente a acolhida numa mucosa uterina que forneça a alimentação apropriada à placenta embrionária. No interior da sua cápsula vital, que é a bolsa amiótica, o novo indivíduo é tão viável quanto um astronauta dentro do seu escafandro sobre a Lua: o abastecimento de fluidos vitais deve ser fornecido pelo organismo da mãe. Essa alimentação é indispensável à sobrevivência, mas ela não ‘faz’ a criança; da mesma forma nem a nave espacial mais aperfeiçoada pode produzir um astronauta. Essa comparação ainda é mais significativa quando o feto se mexe. Graças a uma aparelhagem ultra-sônica muito requintada, o professor Ian Donald, de Inglaterra, conseguiu produzir no ano passado um filme que mostra a mais jovem "estrela" do mundo, ou seja, um bebê de onze semanas a dançar no útero materno. O bebe, pode-se dizer, brinca no trampolim !

Dobra os joelhos, apóia-se na parede, levanta-se e cai. Visto que o seu corpo tem a densidade do fluido amniótico, ele não sente a gravidade e dança muito lentamente, com uma graça e uma elegância totalmente impossíveis em algum outro lugar da terra. Somente os astronautas, em suas condições de não gravidade, conseguem tal suavidade de movimentos.

A propósito notamos que, quando se tratava da primeira caminhada no espaço, os técnicos tiveram de escolher o lugar onde desembocariam os tubos portadores dos fluidos vitais. Escolheram então finalmente a fivela do cinturão do escafandro, reinventando assim o cordão umbilical.

Quando tive a honra de dissertar perante o Senado, tomei a liberdade de evocar o conto de fadas do homem menor que o dedo mindinho.

Com dois meses de idade, o ser humano tem menos de um polegar de comprimento, desde o ápice da cabeça até a ponta do traseiro. Ele estaria muito à vontade numa casca de noz, mas tudo já se encontra nele: as mãos, os pés, a cabeça, os órgãos, o cérebro, tudo está no lugar certo. O coração já bate há um mês. Olhando de mais perto, veríamos as dobras das suas palmas de mão e uma quiromante leria as mãos dessa minúscula pessoa. Com uma boa lente de aumento, descobriríamos as marcas digitais. Tudo estaria aí para se fazer a carteira de identidade desse indivíduo.

Com a extrema sofisticação da nossa tecnologia, podemos vislumbrar a vida privada dessa criaturinha. Aparelhos especiais gravam a música mais primitiva: um martelar surdo, profundo, regular, de 60/70 batidas por minuto (o coração da mãe) e uma cadência rápida, aguda, de 150/170 batidas por minuto (o coração do feto) se sobrepõem, imitando os compassos de orquestra e realizando os ritmos básicos de toda música primitiva, sem dúvida, porque é a primeira que o ouvido humano consegue ouvir.

Assim observamos o que o feto sente, ouvimos o que ele ouve, provamos o que ele saboreia e vimo-lo realmente dançar, cheio de graça e de juventude. A ciência transformou o conto de fadas do Pequeno Polegar numa história verídica, história que cada um de nós viveu no seio de sua mãe.

E, para que melhor percebam a exatidão das nossas observações, acrescentamos: Se, logo depois da concepção, vários dias antes da implantação, uma única célula fosse retirada desse indivíduo semelhante a uma amora minúscula, poderíamos cultivar essa célula e examinar os seus cromossomas. Se um estudante, observando-a ao microscópio, não fosse capaz de reconhecer o número, a forma e o aspecto das fitas de seus cromossomas, se ele não soubesse dizer com certeza se essa célula provém de um símio ou de um ser humano, ser-ia reprovado no exame.

Aceitar o fato de que, após a fecundação, um novo indivíduo começou a existir já não é questão de gosto ou de opinião. A natureza humana do ser humano, desde a concepção até a velhice, não é uma hipótese metafísica, mas sim uma evidência experimental."

(*) Site de la fondation Jerome Lejeune

www.fondation-jerome-lejeune.asso.fr